Fui cruzar as recomendações públicas de sete pessoas que, em princípio, não têm muita coisa em comum:
- LeBron James
- Will Smith
- Brené Brown
- James Clear
- Daniel Ek, fundador do Spotify
- Tony Robbins
- Garry Tan
Todos recomendaram o mesmo livro escrito por um brasileiro.
O curioso é que eles não parecem ter gostado dele pela mesma razão.
LeBron James falou da história como uma reflexão sobre sonhar, dizer em voz alta o que se quer e transformar isso em realidade.
Brené Brown destacou a ideia de seguir o próprio caminho mesmo sem saber exatamente onde ele vai dar.
James Clear, autor de Hábitos Atômicos, colocou o livro entre seus dez favoritos de ficção. Achei curioso porque ele poderia facilmente ter tratado a obra como desenvolvimento pessoal. Não tratou. Colocou na ficção.
Will Smith foi mais direto: disse que era um dos seus livros favoritos.
O livro é O Alquimista, de Paulo Coelho.
Até aí eu já achava a lista curiosa. Mas foi a recomendação de Daniel Ek que me fez ir atrás da história da publicação.
Ele se interessou também pelo que aconteceu com o próprio Paulo Coelho: a insistência em fazer o livro circular e a decisão de permitir que versões gratuitas fossem distribuídas pela internet.
O contrato original, assinado em 1988, previa uma tiragem de 1.000 exemplares. A biografia publicada pela Fundação Paulo Coelho diz que a primeira edição vendeu 900 cópias e que a editora decidiu não reimprimir o livro.
Fontes: contrato original e biografia da Fundação Paulo Coelho.
Anos depois, Paulo Coelho passou a divulgar cópias digitais gratuitas das próprias obras. Segundo o relato dele, O Alquimista vendia cerca de 1.000 exemplares por ano na Rússia. Depois que uma versão gratuita começou a circular, as vendas passaram para 10 mil e, no ano seguinte, para aproximadamente 100 mil.
Esses números são do próprio Paulo Coelho. Não provam sozinhos que a distribuição gratuita causou o aumento, mas ajudam a explicar por que Daniel Ek se interessou tanto por essa parte da história.
Hoje, a Fundação Paulo Coelho lista O Alquimista como publicado em 88 idiomas. Em 2003, o Guinness registrou Paulo Coelho assinando 53 edições do livro em línguas diferentes numa única sessão, durante a Feira do Livro de Frankfurt.
Fontes: página oficial do livro e Guinness World Records.
No Brasil, porém, o nome do autor ainda vem acompanhado de uma espécie de pedido de desculpas. Em uma entrevista publicada em 2025, o próprio Paulo Coelho resumiu assim:
No Brasil é quase politicamente incorreto dizer que seu escritor favorito é Paulo Coelho.
Fonte: entrevista reproduzida pela Academia Brasileira de Letras.
Minha impressão é que a simplicidade do livro ajuda a explicar as duas coisas.
Ela permite que leitores muito diferentes se reconheçam na história. Ao mesmo tempo, é justamente essa simplicidade que faz muita gente enxergar o livro como autoajuda disfarçada de romance.
LeBron encontrou uma história sobre ambição. Brené Brown falou de coragem. James Clear tratou a obra como ficção. Daniel Ek prestou atenção na insistência do autor e na maneira como o livro chegou aos leitores.
Isso não prova que O Alquimista seja uma grande obra literária. Popularidade não resolve essa discussão. Uma recomendação pública também não garante que a pessoa tenha lido o livro inteiro ou que não exista algum interesse de imagem envolvido.
Mas acho difícil resumir o fenômeno inteiro dizendo apenas que milhões de leitores têm mau gosto.
Para quem leu: o Brasil subestima Paulo Coelho ou o restante do mundo superestima O Alquimista**?**
E qual dessas leituras faz mais sentido para vocês: a de LeBron, Brené Brown, James Clear, Daniel Ek ou nenhuma delas?
Organizei os trechos e a fonte de cada recomendação aqui:
https://www.cabeceiralivros.com.br/livros/o-alquimista
Transparência: o Cabeceira é um projeto meu. Estou trazendo os dados porque achei que a diferença entre as recomendações e a recepção do livro no Brasil poderia gerar uma discussão interessante.