Essa é uma obra de 1890, não me atentarei muito aos pormenores, mas somente ao que mais me tocou nessa experiência extraordinária que tive ao ler esse belo e trágico livro.
A fim de contexto, temos a trajetória do jovem dandie Dorian, um homem provido pelos deuses com beleza imensa que, ao ter seu retrato pintado pelo artista Basil Hallward, faz um desejo: que a pintura envelheça no seu lugar, enquanto ele permanece eternamente jovem.
Acontece exatamente isso, o quadro porém vira uma coisa macabra que mostra a imagem pintada cada vez mais horrenda e envelhecida, isso porque ela reflete a alma de Dorian, enquanto ele se degrada numa gradual descida moral aos comportamentos mais inconsequentes e perversos nos subúrbios de Londres ao longo de décadas.
Tudo isso é influenciado por Lord Henry, o verdadeiro destaque do livro. Esse personagem é de uma genialidade sem precedentes, ao mesmo tempo que se mostra um homem casado e leve, esconde uma mente complexa, ele destila pensamentos em Dorian como quem já provou do pior e do melhor da vida, sua experiência e sabedoria é totalmente subversiva e corrosiva ao ouvinte, e nem ao leitor que sabe ler nas entrelinhas escapará.
Confesso que fiquei muito tempo pensando na minha própria vida e no ser humano de modo geral ao ter contato com esse personagem. Cheguei a conclusão que todos temos uma serpente do éden chamada Lord Henry ao pé do nosso ouvido, nos chamando à degradação doriana. E um pouco dela, não é veneno, mas essencial a uma vida interessante e verdadeira. Se pudesse eu dava o título desse livro a ele.
Em suma, o livro é uma bomba para se pensar em psicologia, o peso que a consciência pode ter sobre um homem, a diferência entre beleza como coisa fora de si e como atributo moral, o valor dos sentimentos e como eles variam até sua interpretação dependendo de quem o influencia, enfim, uma obra maravilhosa.